Velha Juventude

•maio 27, 2009 • Deixe um comentário

Youth-Without-Youth
Coisas novas podem ter uma aparência de novidade, mas será que elas não provem de uma memória arraigadas em outros tempos do passado? Existe uma inteligência apriori como sugeria Kant?

Não há como negar que o filme desconstrói paradigmas da metodologia científica e abre clarões para novas possibilidades de investigação sobre o entendimento dos fenômenos da natureza. Mesmo que alguém desdiga, o fato é que o filme exemplarmente elabora um conjunto de imagens psíquicas numa linguagem quase que onírica e mitológica, apontando dimensões em planos diferentes, todavia, não incomunicáveis.

“O tempo é o limite que impede de chegarmos a grandes descobertas cientificas” (prega algumas das falas do Tim Roth (Dominic)). Muitas vezes dependemos do tempo de outras pessoas para a conclusão de determinados atos: do musico a quem deve o termino da canção; do medico, para que a cirurgia se conclua com êxito; do artista, para que a peça teatral chegue ao seu final, dos nove meses de gravidez para o parto da criança, e assim por diante. O curto período da vida é um empecilho no “continun” das idéias também. Com a ciência acontece o mesmo, quem constrói diretamente o tempo cientifico também são homens, feito de carne e osso, com suas limitações temporais. Muitos se perguntam o que teria sido da ciência caso Albert Austin tivesse vivido por muito mais tempo? Será que ele teria concluído a sua famosa Teoria do Tudo, e com isso modificado para sempre o rumo das ciências? Mas, como sabemos, o tempo é implacável e nem sempre o temos para concluir todas as “novas descobertas”, a julgar que a construção de uma ideia vai além do tempo biológico do “ator cientifico”.

Dessa forma, parece que o diretor problematiza o tempo da vida, afirmando que ela é um tempo por demais curto para conclusão das nossas obras, como se ficasse sempre algo inacabado, de tal maneira que persiste sempre uma vontade de viver mais com o objetivo de descobrir todos os segredos da natureza. A partir dessa constatação, o filme elabora uma ficção (será?) de um sujeito que na sede de concluir seu grande projeto de vida, é agraciado pelos deuses do tempo e sofre uma descarga elétrica de um relâmpago que lhe concede a proeza de rejuvenescer alguns anos, dando-lhe a chance temporal de concluir suas pesquisas. Mas se engana se ler o fato literalmente, conquanto o filme regi-se pela abstração dos significados mais amplos possíveis. O que quero dizer é que mesmo que o personagem tenha retrocedido no tempo, esse novo estado de ser, é apenas uma forma metafórica que o diretor faz uso para falar algo da ordem dos mistérios da natureza, já que a “juventude” independe do tempo biológico, a não ser que alguns a entendam como conseqüência física, da casca humana que nos protege.

A “juventude” vai além dos olhos, das impressões físicas, ela está – segundo o filme – em momentos contínuos e metafísicos do universo, como se todos estivéssemos acorrentados por uma inteligência que não tem tempo, só seguimento e construção. Não é que tudo já esta dado e traçado, nada disso, tudo ainda estar por vir, mas para que isso ocorra é necessário trabalhar as potencialidades humanas, até então esquecidas. A forma/forma (ciência clássica) em que construímos os nossos símbolos hoje, não passam de uma concha de retalhos, cheias de imperfeições que, ao fim, ao cabo, nos deixa como baratas tontas sem saber a onde ir.

Voltando as limitações que o filme fala (de não ter tempo), esta não é vista como limitação às grandes descobertas, ao contrario, o que está em debate é uma alternativa que burla o temporal perecível que há com a chegada da morte. Nem tudo que vai, vai por inteiro; fica sempre um pouco do que é herdado pela história à posteridade. Há sempre uma lembrança, alguma coisa que fica perdida no baú do passado, e ao ser vasculhado, o que parecia ter morrido, se revitaliza. Nada é tão novo como parece ser, nem tão velho para ser esquecido; existe uma reminiscência de um tempo já vivido, uma sabedoria atemporal, que pode ser esquecida por uma limitação física, mas não mental. Inegavelmente há uma busca de uma continuidade unificadora, de forma perene, que fica exposta no filme numa conversação que, parafraseando Baudelaire “é uma floresta de símbolos” que a ciência se apegou durante um longo período e que hoje se encontra inclinada a outras perspectivas, já que as que existem não dão conta dos anseios humanos.

A não negação do novo potencial material para a construção de uma nova teoria dependente necessariamente de um resgate do passado, de um momento na historias da humanidade a qual foi esquecida algum traço importante, mas que ainda persiste em nossos símbolos atuais, e, em particular, no inconsciente coletivo aprisionado no abismo de cada (ser)humano. Aqui está à gênese da edificação da A Velha Juventude, muito rica em todos os detalhes quando trata desses resgates metafísicos.

Todo percurso do filme estão presentes esses elementos questionadores sobre o método científico clássico, contrapondo estes com os mistérios esotéricos muitas vezes questionados pela epistemologia, não se sabendo se tais descrenças devem-se a falta de credibilidade na realidade dos fenômenos, ou por falta de metodologia que corresponda as emergências da “sociedade liquida”, ou seja, por não ser viável financeiramente esse tipo de pesquisa, já que ninguém quer pagar para ver os resultados de uma pesquisa que será usufruída, não por quem a patrocina, mas por seus descendentes mais longínquos, daí a razão em opta por um método mais pragmático, algo mais emergencial, mesmo que se perca a chance de descobrir coisas mais absolutas, e não apenas fetichismos científicos. Aqui entra um ponto de suma importância no filme. Alguns personagens ao perceberem a oportunidade lucrativa com o fenômeno que sucedeu ao professor Dominic, não levam em conta o potencial da descoberta em si, mas o proveito que estes podem levar sobre o acontecimento. Terminam por criar uma espécie de fantasia cientifica, sem buscar o que o professor quer com tal método, e isso é tão visível que em um dado momento, quando o professor já não tem mais o que oferecer, eles o ignoram literalmente, ao ponto de não saberem nem quem é aquele homem.

Este é um filme que prima pela qualidade em todos os aspectos, desde o modo de filmar, através dos “olhares” translúcidos lembrando dimensões mimetizadas rogando por mais tempo de vida, reproduzidos pela capitação das câmeras; bem como o cuidado na fotografia, como se estas fossem pétalas de rosas, leves, macias e cheias de cores acentuadas, deixando o espectador sentindo o “cheiro” da sua fragrância.

Enfim, o que fica de mais preciso é a vontade de, enquanto idosos, o que nos falta é o tempo para darmos continuidade aos projetos que julgamos necessários para a evolução da vida. Por outro lado, na condição de jovens, o que nos falta é sermos detentores dos conhecimentos que só a maturidade nos dá. Sem duvida, não questionamos que o tempo é fundamental para a evolução das ciências, entretanto, seria ideal se elas pudessem unir o tempo futuro e o tempo passado numa ordem que não castrasse as possibilidades do inesperado, e que tal continuidade não se perdesse com a morte de um “gênio”, mas pudesse dar continuidade ao resgatar o “espírito” de uma única vida – não de um único homem -, a saber, a vida atemporal da humanidade. Aquela que vive, mas que se comunica através de uma linguagem própria, não material.

Para quem acredita que o conhecimento é apriorístico, este é um ótimo filme para se ver. Para aqueles que acreditam serem as causas da vida uma construção da razão humana conquistada pelo uso da técnica cartesiana, no mínimo poderão se deliciar com a beleza das imagens e da técnica impecável do Coppola. E para terminar esses comentários, deixo uma frase do Carl J. Jung: “ Se os velhos pudessem e os jovens soubessem…”.

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Tudo é Arte

•maio 16, 2009 • Deixe um comentário

Quebra-Cab-Patos-e-PeixesHoje resolvi fazer uma visita a exposição “Reflexio”: Uma Imagem Contemporânea na França, que está exposta no Santander Cultural, na capital gaucha. Como muitas outras que já vi, essa segue os mesmos alinhamentos da dita “nova arte”, chamada de varias maneiras: arte moderna, pós-moderna, arte democrática, arte tecnológica… muitas formas de conceituar o que ao meu entender é apenas uma expressão livre de arte.

Falo de expressão livre de arte porque acredito que hoje tudo é passível de ser enquadrado como arte, até rabiscos de criança, antes servindo apenas aos estudos da psicanálise e para as escolas infantis, agora pode ser utilizada em exposições artísticas de grande renome, bastando ser adaptada com requinte tecnológico para dar mais movimento e interatividade.

Não quero fazer nenhum juízo de valor, questionando a validade artística da nova arte, pois é sabido que à arte, antes de tudo, se constrói pelos traços de um determinado período da história, e quiçá, estejamos em um momento onde ainda não podemos compreender o significado dela; quero manifestar apenas a minha dificuldade em atribuir uma genialidade artística no sentindo de um trabalho que exija mais acuidade mental, mas habilidade técnica, uma construção que dê ao apreciador de arte um sentido do porquê de sua existência.

Sei que alguns defensores da arte contemporânea advogariam dizendo que a arte não necessita ser compreendida, que ela nasce de uma percepção individual de cada artista e não fica adstrita a nenhuma regra especifica, etc. Mesmo que tais defesas possam me parecerem plausíveis, aceitáveis; mesmo que saibamos que a arte existe por ela mesma, desapegada dar formalidades cientificas, não me convence o fato de ter tantas obras que exploram, tão somente, o lado dos efeitos, do excentricísmo visto nos espaços sociais. De novo quero deixar claro, que poder-se-ia cotejar esse tipo de argumento, mas desde que ele não se fixasse a uma rígida fundamentação, ficando preso as causas da “a arte pela arte”, deixando de refletir sobre outras possibilidades representativas.

Me parece que a regra do jogo é: quando mais diferente, mais exótica e provocativa, maior são as chances de reconhecimento no meio artístico. Tempos atrás, fiz uma busca de algumas obras plásticas que estão em destaque no mundo a fora – uma das possibilidades que o Google nos proporciona hoje, mesmo sem termos dinheiro para irmos até elas – e fiquei chocado como há artistas se ganhando dinheiro mundo a fora com um material prá lá – digamos – de singular. Vi de tudo: obras com ossos de humanos, telas pintadas com sangue de animal sacrificado, olhares de uma senhora cheias de rugas, sons que se misturam com pinturas feitas em papel higiênico, enfim, vi de tudo mesmo.

No Santander, onde fui hoje à tarde, não posso dizer que foge muito do encontrado na minha “pesquisa”. Logo ao entrar, encontrei expostos vários quadros/fotografias manipulados por fotoshop e seus afins. Um deles me chamou uma especial atenção: uma fotografia de uma calça jeans molhada, jogada no chão, e fotografada em ângulos diferentes, e mudando apenas as cores; quando olhei para ela, veio a reminiscência da minha ex empregada domestica que insistia em lavar as roupas no chão, alegando que a maquina não lavava bem. Se eu soubesse que aquele ato iria ser valorizado assim, teria tirado varias fotos daqueles momentos tão artísticos.

Ora, isso se explicaria como arte dentro de um espaço própria para obras de cuja primariedade iniciatica, ficaria na categoria de aprendizes, circunscritas a oficinas artísticas, e não dentro de um museu do porte do Santander Cultural.

Minha reclamação se dirige ao exagero atribuído a qualquer coisa que tenha um efeito visual diferente, como se fossemos crianças diante de um chocalho coloridos nas mãos de alguém que, balançando de um lado a outro, nos deixaria encantados com tanta interatividade e movimento naquele brinquedinho. Definitivamente, não sou isso, não espero da arte um apelo mercadológico que prima eminentemente por estímulos sensoriais. Onde fica o espaço para as obra mais singelas, feitas a mão, na qual o processo de criação é uma extensão do próprio artista? Temo que no futuro não muito distante, as pessoas não consigam diferenciar uma parede branca do quadro “Primavera” de Botticelli.

Disputa de Búfalos

•maio 15, 2009 • Deixe um comentário

bufalosDisputa de Búfalos

Búfalos são uns animais que me despertam muito admiração pelo fato de serem robustecidos, de pernas fortes, com grandes patas. Tem até – pasmem – chifres possantes, fortes que nem uma barra de aço. Quanta protuberância eles têm!

Depois de ser surpreendido nesta quarta-feira, dia 22 de abril, pelo arsenal bélico das palavras proferidas pelos ministros do STF, Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, me veio à mente do quão semelhantes são às ilustres excelências com os búfalos.

Foi inevitável não aproximar o comportamento desse tipo de espécie quando somos obrigados a nos deparamos com tantas semelhanças. Vejamos algumas:

1º – O búfalo é um animal que vive em grupo, podendo ocorrer varias manadas isoladas com milhares deles – Os ministros vivem em grupos colegiados, e podem ter opiniões dissonantes dos demais (?).

2º – Pequenos grupos podem escapar de um grupo principal porém reunindo-se a eles mais tarde – Os mesmo ocorre na Corte Suprema quando há entendimento divergente, mas isso não os impedem de manter a unidade entre eles (?).

3º – Grupos de búfalos solteiros podem se afastar da manada principal e búfalos solitários são comumente encontrados – Alguns ministros por vezes podem se sentirem isolados por não ter a sua tese acolhida pelos seus pares, mas isso não quer dizer que ficará solitário por “adi eternum” (?).

4º – Búfalos adultos dentro de uma manada mista preservam a hierarquia de dominância, a complexidade da qual é influenciada pelo tamanho da manada – No STF não é diferente, porquanto há regimentos internos que ditam as regras a ser observadas, como o respeito ao presidente da turma, entre outras regras. Muito parecido, não (?).

5º – As búfalas também estabelecem uma “ordem de importância” entre elas mesmas – Como sabemos existe uma ordem de decoro, desde os horários das audiências até as palavras usadas na sessão (?).

Destarte, poderia ficar comparando as parecenças por várias “folhas”, mas acho que já deu para perceber que há muitas coincidências entre as duas espécies de animais.

Depois de ter “pesquisado” sobre o comportamento dos búfalos me deparei-me com outra indagação: Por que os búfalos brigam? Será que eles são por natureza, agressivos?

Tentando buscar uma resposta para minha inquietação, me informei que no Vietnã a briga de búfalos é algo muito lucrativo e que atrai milhares de pessoas para os estádios. Também fiquei sabendo que eles (búfalos) são por natureza calmos, mas quando são “treinados” por vários anos, firam umas feras. O macho excepcionalmente, quando no seu hábitat natural, briga por um único motivo, quão seja, pela conquista de território e para conquistar os olhares das fêmeas.

Algumas acusações trocadas entre os ministros sugerem esse estado de natureza selvagem, só que, por óbvio, com contornos diferentes. Ouvi e vi que um deles pretende chamar os holofotes da mídia pra si; doutra parte, o que se alega é que se sente ameaçado e que por isso tenta se defender. Justificativas pessoais não faltam, assim como não faltam para os búfalos quando visto do ponto de vista comportamental. A questão que se coloca é a de que: para os búfalos, as ações são motivadas pelos instintos, enquanto que para os ministros, presume-se serem eles dotados de razão e liberdade de comportamento – na acepção mais kantiana da palavra.

Mas olhando bem de perto, parece que a evolução das espécies – já que estamos comovidos com os 200 anos da obra de Charles Darwin – não chegou ainda para alguns. Tudo bem, isso não importa muito. Se os búfalos podem parecer com gados, os nossos ministros podem parecer com búfalos.

O Último Tango em Paris

•maio 15, 2009 • Deixe um comentário

o-ultimo-tango-em-parisO Último Tango em Paris

Se há como definir em econômicas palavras – algo extremamente arriscado – o filme “O Último Tango em Paris”, não hesitaria em dizer que os traços das neuroses psico-sociais são uma marca acentuada tratada com a excelência de quem sabe o que faz. E, acrescentando, não poderia deixar de apreciar a beleza das imagens. E que imagens…! Elas são de uma composição artística que chego a compará-las a uma pintura clássica, ricas em todos os detalhes, e sempre insinuando algo que vai além delas mesma, se coadunando com as demais propostas do filme. Uma viagem lúdica, eu diria. Esse é um filme onde se misturam arte, filosofia e ciência, comprovando a tese de que o cinema é muito mais que diversão para as massas. Tamanha é a sua complexidade que às vezes chega a confundir o espectador, posto que os personagens mais parecem sair de uma clínica psiquiátrica, e não da criação ficcional de um roteiro cinematográfico. No mais das vezes, tais comportamentos são irracionais, perturbadores, non sense, deixando-nos na posição de analista, a procura de um significado que esclareça as patologias de cada analisado. Confesso que tal postura não é fácil de ser feita, haja vista os tantos momentos que não nos dão uma ordem linear, uma contextualização extraída da linguagem lógico/formal. Aquilo que muitas vezes esperamos por antecipação, já deglutido, digerido.

Nesse diapasão, Bertolucci parece que brinca com o mundo Freudiano, como se declamasse as passagens do livro “Totem e Tabu”, levando os receptores até as fontes das raízes psíquicas da psicologia social, principalmente quando são abordadas as ambivalências sociais encarnadas nos personagens de Jeanne (Maria Schneider) e Paul (Marlon Brando), figuras centrais no drama. Numa complexa relação amorosa, os personagens tentam convencionar dois mundos paralelos: um “normal”, do convívio social, onde tudo parece estar pautado pelas normas morais (mesmo que estas por vezes pareçam imorais, isto é, ganhando uma “roupagem” nova), reforçando as teorias Freudianas, as quais os tabus servem para esconder exatamente o que a imoralidade sexual do inconsciente quer revelar, ao passo que ao mero indício de sua manifestação, é de pronto censurado pela consciência; ou melhor, tentado, já que tudo termina por se adaptar ao um novo contexto, trazendo novas manifestações do estado inconsciente à consciência social.

O outro mundo, intra quarto de hotel, é o oposto daquele. Aqui todas as fantasias sexuais são possíveis (deste que não se relevem os nomes civis); sem interditos, sem limites que demarquem o que é permitido. É desse paradoxo que aflora muitas teorias psicanalíticas, já que ao tentar incutir os desejos escabrosos dos impulsos sexuais do inconsciente – que ao meu entender é simbolizado pelo quarto de hotel, e pelas portas entreabertas que ora mostram, ora escondem os desejos sexuais – tais proibições terminam aproximando cada vez mais as “loucuras privadas” das “loucuras públicas”, tornando os atos tidos como “irracionais” semelhantes aos atos “racionais”.

Quem já assistiu, ou ainda vai assistir ao filme, consegue identificar logo no seu inicio essas extravagâncias mentais. Mas há dois momentos que eu faço questão de chamar atenção do espectador, dada a importância da simbologia empregada na cena. Uma ocorre quando, Jeanne, tendo encontros sexuais às escondidas com Paul, isso por ela ser noiva de Tom (Jean-Pierre) num relacionamento aparentemente “saudável”, ficando explicito os inconvenientes relacionais quando estes (Jeanne e Tom) se encontram no mesmo quarto onde acontece o “adultério”. Nesse encontro, absolutamente todas as falas e expressões do casal ensejam um total estranhamento entre eles, como se àquele quarto fizesse parte de uma dimensão a qual não os pertence, já que ali – principalmente Tom, em sendo ele um representante da razão social -, não poderia fantasiar as libidinosas relações que Jeanne mantinha com Paul, por não fazer parte daquele mundo; ao passo que lá fora, longe do quarto, eles poderiam se permitir a outros tipos de fantasias, digamos, mais “nobres”, porém, ressalte-se, não menos esquisitas.

Na outra cena, já se aproximando do final do filme, está acontecendo um concurso de tango e os candidatos são visivelmente “reprimidos” pelas regras e os jurados, de modo que seus rostos parecem congelados e seus corpos executam movimentos rígidos, censurados, algo parecido com os efeitos que os tabus geram na consciência coletiva, ou seja, o apelo ao abandono da natureza instintiva em prol do ideal do homem cultural, mas civilizado. É justamente nesse momento, que se misturam as ambivalências psico-sociais, quando os dois mundos que o filme trata, se misturam através do casal louco, insensato e imoral, que ao adentrarem no salão de dança onde está acontecendo à apresentação dos candidatos do concurso, causa um tumulto aponto de constranger a postura dos lúcidos, sensatos e moralmente corretos do mundo dos civilizados.

Esse é o tipo de filme o qual eu costumo classificar como: Um imbricado movimento fílmico. Ou seja, serve de material analítico para muitas áreas do conhecimento, inclusive o cinema. Por isso, pode até, em alguns momentos nos enganar, quando o que esperamos dele seria algo comparado a um “Evita Perón”, e não um problema algébrico. Enfim, sem delongar mais sobre os aspectos complexos do filme, pois não há como esgotá-los aqui, deixo registrada a minha admiração por esse grande filme, a meu ver, uns dos melhores que eu já assistir, e mais algumas perguntas acerca das provocações que ele me trouxe: Haveria uma patologia das comunidades sociais da qual não podemos escapar? Estas são necessariamente neuróticas? Até que ponto o desenvolvimento cultural consegue dominar as pulsões sexuais? Não seriam elas apenas um outro modo inavistável da condição humana?

CHE

•maio 8, 2009 • Deixe um comentário

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Não resta dúvida que o filme não é apenas mais um dos estandartes sobre o revolucionário argentino, Ernesto Guevara De La Serna, mais conhecido por Che Guevara, sempre mostrado nas telas de cinema como o grande idealizador, “conquistador”, da revolução Cubana. Não se trata que no filme “Che”, isso não fique subtendido, mas me parece que, ao menos dessa fez, não foi o fio condutor da narrativa.

O filme segue a linguagem ficcional/documental mostrando em planos variados a história de como a mídia (americana) tratava o movimento guerrilheiro na ilha caribenha daqueles tempos. Por outro lado, aborda a vida dura dos “iniciados” na guerrilha, entre eles o Ernesto Guevara, mas aqui, sem tanto enaltecimento, sem dar um ar de super-homem de “O Capital”, mas mostrando o lado pré-havana com todas as suas dificuldades.

É interessante como o diretor manipula as imagens dando-as uma aparência de datação de arquivo de imprensa jornalística em alguns momentos, e retomando em outros, a “briga de enquadramento” para captar o melhor ângulo de uma imagem, como se estivesse cobrindo em tempo real os acontecimentos que acabaram de acontecer; deixando o espectador como se estivesse diante de um furo jornalístico das guerras atuais.

Me parece que não foi por acaso que tais perspectiva acerca do modo de operacionalizar a mídia, dando essa dupla visão – de quem conta, e de quem vivencia a realidade – algo propositadamente quisto no filme. Nada melhor que utilizar as mesmas armas do inimigo quando se quer passar o “gostinho” do seu próprio veneno. E no caso, a arma utilizada é o próprio comportamento dos meios de comunicação que bem conseguem ditar os rumos, se não da guerra, ao menos do que se pensa sobre ela, de forma a ludibriar os acontecimentos históricos ao sabor de interesses particulares de um grupo de pessoas. Nesse ponto o filme me conquista, pois não é fácil contra-atacar com a mesma ferramenta (o cinema) depois de terem se passados tantos anos e não cair nos comentários do “foi apenas um protesto”, “é mais um clichê”. Definitivamente, não é uma mera retaliação de quem foi ferido que fica patente no filme Che. Ele vai além do rancor ideológico de grupos políticos; é ao meu entender um esclarecimento atualíssimo de como coexistem as múltiplas verdades sobre o mesmo fato.

O filme não só apenas se propõem a descrever os fatos frios dos livros de história – isso inegavelmente faz parte dele -, mas evolui usando da sutileza narrativa e desvelando o status quo aparentemente despretensiosos. E como não poderia deixar de ser, o sujeito que catalisa tais elementos é o personagem do Che Guevara. Não obstante a sua coragem, liderança e determinação revolucionarias, surge um outro Che, menos heróico e fetichizado pelo capitalismo. O personagem é construído como alguém que está inserido num contexto histórico com as demais pessoas que se alinham a mesma causa, comprovando que os acontecimentos não se reduzem exclusivamente a algumas poucas pessoas, mas a um coletivo engajado e prontos a levarem adiante os seus ideais.

É tão inteligente a construção do novo Che Guevara, que até o que parecia ser óbvio, como uma finalização do filme pela conquista da revolução na cheganda em Havana, algo como “missão cumprida”, entretando, ele desemboca em algo ainda mais profundo: surge pela entrelinhas, um questionamento se realmente houve uma revolução realizada pelos “selvagens da america do sul”, ou será que esta pode ter sido fruto de uma criação midiática americana no intuito de resguardar os seus futuros interesses políticos; algo que legitimasse o que eles (americanos) fariam com Cuba no pós-revolução (?). Nesse momento fica algo a ser refletido, que talvez não fique tão explicito para o espectador afoito, mas que não há como negar as possibilidades interpretativas que se manifestam, principalmente quando falamos de construção de idéias ideológicas. E o que não falta no filme é justamente isto: visões ficcionais sobre fatos reais. Por tudo isso: Bravo, bravíssimo, Che!

Los Abrazos Rotos

•abril 21, 2009 • Deixe um comentário

los_abrazos_rotos_2009Mas uma vez Pedro Almodóvar surpreende com a narrativa do seu mais novo filme: Los Abrazos Rotos, 2008. Um feito que envolve um pouquinho de tudo na vida de um ser humano. Mantendo seu estilo excêntrico dos filmes anteriores, ele segue a me impressionar pela estilística empregada na captação das imagens e na criação de personagens femininos demasiadamente surreais.

Me impressiona a capacidade como Almodóvar põe à amostra as relações do ser humano com o outro, com a sociedade e o mundo. Sem duvida alguma assistir a um filme dele é se colocar diante de um divã de analista no qual são expostos os sentimentos de medo, ódio, amor, sexo, inveja… Tudo que revela o humano em nós.

Dessa forma, a arte fílmica do diretor cria uma maneira de explicar o mundo pelas emoções dos personagens. Não é a toa que um dos protagonistas – que é diretor de cinema – fica cego depois que o seu grande sonho se transforma em pó; talvez seja um modo de ver o mundo diferentemente a partir das tragédias que nos sucede. Afinal, como diz Edgar Morin, no seu livro “A cabeça bem feita”: “toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de musica, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição humana”. Isso explica um pouco como age esse grande filme.

Para quem gosta de filmes que falam sobre filmes, esse é um prato cheio. Há muitos diálogos que versão sobre a estética cinematográfica, algo que me lembra os estilos noirs e a fala dos filmes do Godard, repletos de muita analise interpretativa. Enfim, um bom filme que suscita debates sobre quase tudo.

Giordano Pablo Dantas

O Direito a Troco de Banana

•abril 19, 2009 • Deixe um comentário

banana“Quanto vale ou é por quilo?”, pergunta o nome do filme do Sergio Bianchi, diretor de cinema brasileiro. Sem querer transpor a ficção cinematográfica, faço uso apenas do nome como meio ilustrativo para definir o perigo que percorre o mundo jurídico atualmente. Uma preocupação vem me afligindo nos últimos tempos, qual seja a de que os cidadãos estão fazendo uso dos meios jurídicos, não para pleitearem uma solução para os seus conflitos, mas para se oportunizarem dos pseudo-conflitos a fim de ganhar um trocadinho para si.

Tendo contato com as informações do mundo jurídico, ultimamente me dei conta do grande número de demandas que encharcam o nosso judiciário com causas banais, com o perdão da palavra, fúteis mesmo. Pedidos que muitas vezes poderiam ser negociados entre as partes – e caso estas tivessem a noção da real função da justiça – ajudariam a desafogar o grande numero de processos que os magistrados vêm sendo forçados a julgar de modo mais rápido, e muitas vezes sem o devido cuidado, dado a falta de tempo. Justiça, direitos e garantias fundamentais são coisas sérias, inobstante por vezes não o pareçam.

Enquanto pessoas buscam se gratificar financeiramente procurando a justiça com problemas cuja problemática gira em torno do furto de galinha, crime ambiental pela morte de um tatu, um jogador de game que se sente ofendido pelo resultado do jogo e pede reparação por dano moral; tudo numa mesma crença: “não custa nada mesmo, irei incomodar o réu”. Cabe ressaltar que este tipo de atitude é a que podemos chamar de “delinqüência processual”, e não o fato de não querer dar provimento a qualquer tipo de demanda.

Contudo, enquanto há pessoas querendo litigar por problemas diminutos, há pessoas que sofrem aguardando a prestação jurisdicional, por terem problemas com a vida, a liberdade e o patrimônio.

A pergunta que me faço é: será que é justificável a aceitação de toda e qualquer demanda posta em juízo? Parece-me que não. Já estamos passando da lógica do bom senso e banalizando o sistema jurídico. Não podemos fechar os olhos e achar que todos os problemas necessariamente se resolvem por via processual. Da maneira que estamos evoluindo, este tipo de cultura da “Moeda de Troca”, no direito, já está causando uma serie de injustiças sociais. Assim como está, é inviável dar conta de tantas demandas. Faltam juízes, promotores, defensores públicos, enfim, toda a infra-estrutura para abraçar as necessidades de todos, torna-se insuficiente.

A lógica atual é agir nas conseqüências, ou seja, aumentando o numero de servidores públicos – algo nunca alcançável -, tendo em vista o vertiginoso numero de litígios. A evolução dos fenômenos sociais é por demais veloz, e o direito, como uma ciência que tem como finalidade a busca da ordem social, deve dar aos cidadãos uma justiça mais equânime e célere por meio de mecanismos que viabilizem tais expectativas. A melhor alternativa para desafogar o judiciário, hoje, seria fomentar a utilização da arbitragem de forma mandatória e não apenas como uma mera prerrogativa das partes.

Sem querer entrar no mérito da questão sobre a melhor estrutura da arbitragem – algo que abordarei em outra oportunidade – o fato é que as pessoas necessitam amadurecer e tomar consciência de que acionar a justiça é algo que se deve fazer em casos que não seria possível solucionar de outra maneira. Lembremos dos tempos de escola: quando nos envolvíamos em alguma briga com colegas, a professora entrava como uma conciliadora apaziguando os ânimos e solucionando o conflito. Poucas brigas chegavam à diretoria, grande parte delas era resolvida pelos próprios sujeitos envolvidos. Por que não aplicamos formulas tão simples como essa?

Finalmente, os operadores do direito não podem se sujeitar ao fomento perverso, sem que ocupe o lugar de limite, passando a ser um gestor de acesso ao gozo individual na busca de um trocado, uma renda financeira. Temos que restaurar a seriedade e a credibilidade da justiça antes que ela vire uma feira de sentenças. Abaixo ao direito a troco de banana!

Giordano Pablo Dantas