Jules et Jim

Jules_et_Jim21Introduzindo mais um comentário fílmico, diria que, antes de tudo, o filme ora analisado, é uma grande exposição da menor diferença que as pessoas podem ter/querer em uma relação; discute por entre falas e imagens, o que é uma indiferença irredutível entre amigos vivenciados por Henri Serre e Óscar Werner (Jules e Jim), e entre estes e uma mulher, a linda Jeanne Moreau (Theresa).

Na medida em que as mulheres se tornaram senhoras dos seus desejos, sintomas sociais vêm crescendo de forma muito eloquente. Um desses sintomas, tão bem tratado na abordagem desse ícone da Nouvelle Vague, é a marca da “violência” aflorando na mulher, antevista já nos idos dos anos 60, pela crítica certeira do mestre Truffaut. A mulher construída no filme é uma mulher de comportamento, digamos, desviado; ciente da sua capacidade de “poder” sobre os homens, ela busca manipulá-los como se eles fossem marionetes em suas mãos, aplicando todo tipo de “formula” – já que agora ela é sujeito relacional e não mais objeto – para ser a grande estrela das atenções, tendo todos os desejos supridos e (in) reprimidos – desconto de um tempo de “clausura”, quem sabe?. A mulher agora ganha à posição dianteira nas relações sociais e, sabedora disso, arma um conjunto de sistemas para a sua retroalimentação, fazendo insurgir o inicio da crise da masculinidade.

A mulher em não sendo mais propriedade de direito do homem, torna-os jules_et_jimmuito mais confusos e perturbados com o esse novo modo de “ação” – no sentido Habermasiano – causando um estado de surpresa aos homens: O que deseja uma mulher? Esta pergunta está perenemente declarada na relação entre os dois homens (Jules e Jim). Eles são o fio condutor para se possa “ler” essa construção que o filme nos trás.

jules-et-jimNavegando na onda da literatura feminista do inicio do século vinte, encontramos obras como “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert; “A Mulher de Trinta Anos’, de Balzac; “Capitu”, de Machado de Assis, enfim, obras da literatura que são plasmadas tão bem no filme,  mostrando o sexo feminino sob essa nova perspectiva (para a época) do ser mulher.

E não poderia ser diferente, pois surgem ao tocar dos anos sessenta, novos mulher_para_dois_01questionamentos acerca da mulher: (i) o que essa mulher quer; (ii) o que ela não quer; (iii) como ela pensa. Tudo isso no afã de saber qual o novo papel não só da mulher, mas, principalmente, do homem frente a ela (mulher). Afinal, uma grande parte das dificuldades dos homens está, ainda hoje, em sua incapacidade de enxergar o que as mulheres enxergam neles.

Parece-me que está posto neste filme a obsolescência de uma identidade da definição  do (ser) masculino e feminino. À guisa de exemplo, os amigos Jules e  Jim, são mais “mulheres” do que a personagem Theresa , e esta, por outro lado, é mais “homem” que os dois personagens. Dessa forma, Truffaut, é pioneiro na analise do comportamento “masculino” na mulher, e como esta nova conduta se tornaria trágica ao pondo dela não suportar tamanha mudança e vivenciar um sentimento de “morte existencial” em todas as suas relações amorosas, haja vista que ela não conseguiu se reconhecer em nenhum homem, a não ser nela mesma, o que só exemplifica o motivo pelo qual o filme termina inesperadamente trágico.

Não sem razão,  essa é uma  obra que queba com paradigmas do  modo de fazer cinema da época,  principalmente de uma modo histórico de fazer cinema americano, predominantemente machista, retratados através dos  filmes de faroeste e romance, onde a mulher ora era tratada como a doce mocinha, dona de casa, sempre a espera do marido; ora como objeto sexual que se dispunha a saciar os desejos do homem, e passa a ter uma nova formar de exposição do “modus operandi” de se fazer cinema, o que podemos afirmar, sem insegurança, que o masculino na arte cinematográfica estaria superado a partir da realização de Jules et Jim, enredando novas possibilidades de retratar a questão de gênero entre homens e mulheres. Esse novo olhar, aqui, é algo que não se esgotou ainda, muito pelo contrpario. Ele permanece sob novos prismas modernos, os quais ensejam novas observações entorno das transformações culturais na sociedade. Em resumo, assistir a Jules et Jim, é uma oportunidade que o espectador terá de ter contato com uma brilhante retratação de um período revolucionário da história da mulher na atuação nos palcos da sociedade, e como as mudanças muitas vezes são vistas como algo absurdo no primeiro momento.

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~ por Giordano Pablo Dantas em julho 31, 2009.

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