Cinzas do Passado Redux (Dung che sai duk redux)

cinzasNeste brilhante filme encontramos dimensões metalingüísticas que, no primeiro momento, podem parecer-nos estranhas pelo fato de não seguirem uma comunicação lógico-formal na sua narrativa. Aliás, isto é uma marca da autoralidade desse diretor (Wong Kar-wai), cujo uso da linguagem extrapola as atmosferas do cognoscível.

Quem for assistir a essa obra-prima do cinema, vai se deparar com doses extras de radicalização do imaginário, da simbologia e da sincronização do tempo. Pode haver uma posição intelectualmente mais incômoda que a de “flutuar” na névoa de possibilidades não comprovadas, não sabendo se as imagens que estamos vendo são verdadeiras ou ilusão? Essa é a atmosfera quase onírica de Cinzas do Passado Redux, e nele não encontramos nada em que possamos confiar, exceto o nosso próprio e tão falível julgamento subjetivo.

Entretanto, na tentativa de dar algum direcionamento acerca da compreensão da obra, não hesitaria em dizer que o guia para tanto está no que eu chamo de “textura” cinematográfica, ou seja, naquilo que aparece aos sentidos: cor, luz, sombras… Todo tipo de objeto comunicacional que  causa às impressões nos espectadores.

 Vejamos alguns elementos desse complexo jogo de texturas, tão bem utilizado no filme.

Em primeiro lugar, verificando os elementos terra, ar, fogo e água, chegamos a uma definição que taiscinzas 2 elementos são intrínsecos ao movimento, as afetações do homem. Entendo que o diretor atribui os acontecimentos, ditos naturais, aos próprios acontecimentos que sucedem ao ser humano,  não existem casualidadem;  o que há é uma sincronização de eventos que coincidem com a vida humana. A indissociação entre o acaso e “devir” – para usar uma linguagem mais moderna para existência –  é uma constante. A guisa de exemplo, podemos perceber em alguns trechos do filme as mudanças das estações, e como essas influenciam sobre o comportamento dos personagens.

Em segundo momento, a riqueza das cores impregnadas em todas as cenas, é de tirar o fôlego. Joga-se “tintas” e mais “tintas” para criar um efeito multicolorido, que ao fim, ao cabo, constrói uma riqueza visual que proporciona outras perspectivas do que seja o enxergar. Isso nos induz a um pensamento schopenhaueriano, ou seja, será tudo que vemos uma mera limitação dos sentidos? Bem, o filme não explica tais indagações, mas sem duvida sentimos uma outra possibilidade de existência ao ver outras perspectivas visuais. 

E já que tocamos na questão das possibilidades, acho esse conceito seria uma boa forma para discernir o material artístico aqui comentado. Quando em um determinado momento se alude a possibilidade de esquecimento dos males do passado, através do vinho mágico, acredito que ele seja uma mensagem “oracular” – como existe em quase toda a cultura oriental – para dizer que o passado negro tem que ser superado, ao passo que quem carrega-o no futuro, carrega também os males do atemporal.

cinzas 4Enfim, alguns especialistas são capazes de determinar só pelo aspecto, gosto e comportamento de um vinho a sua procedência e o ano de sua origem. Existem conhecedores de antiguidades que podem afirmar como extravagância precisão a data, o lugar de origem e o autor de um objeto de arte, simplesmente olhando-os. Existem astrólogos que podem dizer a uma pessoa, sem nenhum conhecimento prévio, a data do seu nascimento, qual era a posição do sol e da lua, e qual o signo que se encontrava sobre o horizonte no momento de seu nascimento. Portando, diante de tais fatos é preciso admitir que os momentos possados deixam marcas duradouras em nossas vidas, muitas vezes não desejadas.

Finalizando essa tentativa de explicar a linguagem desse diretor e, em particular, desse filme, insisto que quem for vê-lo tem que se despir do cartesianismo clássico. Não podemos ter um ponto de vista causal. A causalidade enquanto meramente estatística não admitiria, aqui, um entendimento. Pois ela exige uma explicação como um dado acontecimento surge a partir de outro. Algo totalmente diametral da proposta desse diretor, que comunica a sincrônidade, ou seja, a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significando algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si, assim como dos estados subjetivos (psíquicos) dos observadores.    

 

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~ por Giordano Pablo Dantas em julho 23, 2009.

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