O Julgamento em Nuremberg (Judgment em Nuremberg)

Julga

Geniais indagações são levantadas em um dos filmes mais dialéticos que eu já assisti até hoje. Questões que fazem pensar sobre quem fazem as leis – os juízes ou os políticos? Como se chega a uma decisão justa? Existe o justo? Ou este é um acordo convencionado pelo poder político? Perguntas como essas vão sendo cuidadosamente trabalhadas majestosamente ao longo da narrativa regada por elementos musicais e interpretativos da melhor qualidade. Um verdadeiro clássico do cinema. Recomendável a quem se interessa em historia, política, filosofia, enfim, que tem algum interesse em cinema de qualidade.

O Julgamento em Nuremberg reflete a historia de uma Alemanha que fora julgada e condenada por um tribunal sem legitimidade – segundo a opinião de alguns -, pois, este, além de não nascer de suas entranhas, os operadores do direito desconheciam o “DNA” do seu passado.

É nesse passado, pré-Hitler, que impecavelmente tenta ser resgatado, em particular, nas contestações tão bem elaboradas pela defesa, quem são os verdadeiros culpados pelos crimes cometidos contra vários grupos humanos. O que esta em jogo não é negar o que aconteceu, mais explicar o porquê que aconteceu.

Para tanto, como ficou relatado no discurso de alguns dos personagens, realmente haviam pessoas que tinham um passado “limpo”, longe das ideologias do Terceiro Heich; pessoas de bem, que contribuíram positivamente com suas vidas para o desenvolvimento das artes, das ciências e da educação. Pessoas estas – não sem motivos – muito elogiadas e aclamadas nos tempos modernos, e pela própria ciência jurídica, em particular. Não há como se fazer uma justiça efetiva sem levar em conta todos os elementos que consubstanciam nos fatos históricos. Essa é a proposta, tão bem executada, e extensivamente debatida ao longo de três horas de filme.

Sem dúvida, o que vemos nessa obra prima – entre tantos outros aspectos – é uma aula de como se perquire a justiça, na sua melhor acepção. E tal estado de consciência é trazido à baila pelos olhos do Juiz Americano, representado numa magnífica interpretação pelo ilustre Spencer Tracy que, em tantos outros feitos, sempre se questiona a legitimidade da sua figura ao presidir um jure fora da sua nação. Muitas são as cenas que nos comprovam tais dúvidas, mas a mais eloqüente de todas elas, para mim, é quando ele sai da sala em que estava ocorrendo o júri e vai caminhando pelas ruas de Nuremberg compassos lentos e observando tudo à sua volta. julgamento-em-nuremberg02

Ao caminhar por elas, ele se “situa” com o cotidiano dos cidadãos alemães, de quem percebe que há uma contradição entre a imagem criada mundialmente pela mídia e a que ele próprio estaria constatando. A exemplo do que digo, recomendo olhar atentamente para uma cena que ele está comendo ao caminhar e nota que no espaço convival de Nuremberg, habitavam pessoas que, como o advogado de defesa bem argumentou, tinham algo que ia além do nazismo; o seu olhar terno neste momento lançado sobre uma moça, é algo comovente tanto em termos técnicos, ao cabo de uma criação realística impecável na troca de olhares, uma “vivencia” do personagem; bem como no que tange ao profusão de idéias geradas, que sugestionam a possibilidade de humanização mesmo sob um regime totalitário.
É nesse ato de ir às ruas para tentar compreender como um povo capaz de desenvolver tamanhas virtudes, foram capazes de deixar que o caos se instalassem de maneira tão bestial no seu meio. Assim, a atitude do juiz, não só está em conformidade com o que o mestre, Dolnalt Duorking, cuja obra “O império do Direito”, julga ser essencial para compreender as grandes decisões dos tribunais, tentando entender integralmente os acontecimentos, sem, contudo, ficar circunscrito ao seu tempo, mas imprime o verdadeiro ato de julgar, ficando acessível para todas as experiências que possam fazer dele um homem disposto a entender a verdade para além do próprio tribunal.

É extraordinária a riqueza dos “questionamentos reflexivos” que o filme desperta no contato – principalmente – com as falas dos atores. Em um momento oportuno, Dan, depois de um longo embate no tribunal, senta-se no sofá onde está hospedado na cidade, e pega um livro escrito por uns dos réus, Ernst Janning, não menos que uns dos construtores da constituição de Weimer, que agora sentava-se no banco dos réus.

Nesse momento o juiz ao ler alguns trechos da obra para os seus colegas presentes, verifica que as ideias propostas ali, aludiam “retratos” de um tempo que primava por uma civilização sem armas, por valores que colocavam a vida humana acima de quaisquer outros interesses, consagrando valores de liberdades e de humanidade. Como uma espécie de professor, sabedor que o aprendizado crítico se dá não apenas por afirmações emanadas de sua erudição, mas da capacidade de motivar perguntas, neste instante questiona aos demais companheiros “como alguém capaz de produzir coisas tão sublimes, poderia participar de crimes tão bárbaros?”.

Diante de tais fatos, ele busca o que poderia mais se aproximar da verdade, tendo como foco a grande responsabilidade que tinha em suas mãos.

Ora, é sabido que caso o tribunal de Nuremberg condenassem alguns dos homens mais ilustres da sociedade Alemã, comprometeria diretamente os ânimos dos cidadãos que poderiam se posicionarem contra os EUA e a favor da USS no período que se convencionou de chamar de guerra fria, ariscando toda a credibilidade erguida sob pilares frágeis, e com isso dar outros rumos aos planos de “reconstrução” da Alemanha.

Isto exercia uma pressão direta sobre os magistrados, ao ponto de ser cogitado varias vezes a renuncia do julgamento em questão. Mas nem isso foi capaz de abalar as estruturas éticas e morais do nosso jurisconsulto, Dan. Ele mesmo em alguns trechos afirmou que nem sempre a decisão mais lógica, é a mais justa, e que o homem não pode fraquejar diante dos interesses externos, embora devesse avaliar integralmente as múltiplas variáveis do momento histórico. Não há uma solução fácil diante de casos tão complexos.

Enfim, este é um filme que fala sobre o tempo da justiça; um tempo que pode variar de acordo com os regimes políticos, sociais e culturais, em suma, como fala Noberto Bobbio, que se preocupa com o tempo histórico.

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~ por Giordano Pablo Dantas em julho 5, 2009.

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