Budapeste

budapeste07tSer considerado um estranho em outro país é algo normal nos fatos da vida, já que quando estamos fora de nossa pátria nos deparamos com um mundo desconhecido nos seus múltiplos aspectos, sejam eles sociais ou culturais, o certo é que não é fácil se adaptar quando se está a conclamar diferenças muitas vezes gritantes, como os idiomas distintos, por exemplo. Mas o incomum mesmo – nem sempre o é – é se sentir um estrangeiro na sua própria pátria, na sua região, no seu estado, na sua cidade, e pasmem, até na própria família.  

O filme Budapeste é um pouco disso, ou seja, nos leva para uma dimensão na qual não se sabe bem ao certo onde se estar. A transposição e a sobreposição dos dois países – Brasil (Rio de Janeiro) versus Hungria (Budapeste) – de culturas tão distintas, serve como parâmetro denotativo para problemas incontornáveis de um homem que não consegue seu espaço na sociedade. Não importa o país, a predominância de uma sensação de estrangeirismo erguida sobre a “anatomia” do personagem José Costa (Leonardo Medeiros) é uma constante.  

A “falta”, isto é, o incomodo de estar faltando algo que preencha a vida, a sensação de estar no lugar errado, na companhia de pessoas que não nos interessa, traduz uma falta de acolhimento existencial num abstruso vazio intelectual.

Brasil-Budapeste, o que há de melhor no novo é o que responde ao desejo mais antigo; por mais antigo, neste caso, torna-se a busca pela efetivação, tão ampla quanto possível, da conclamação de Pico della Mirandola, feita seus séculos atrás, segundo a qual “nada é mais magnífico na terra do que o homem”.  O homem (José Costa), é o catalisador dessas coisas novas e antigas.

Não há como não nos focarmos no personagem, pois, afinal, este é o tipo de filme que centraliza quase que inteiramente suas lentes em um único personagem, “esquecendo” do seu entorno. Este, quando aparece, é apenas para compor o cenário sobre o qual o personagem age; portanto não existe vida fora do seu mundo; à alteridade é algo distante, intocável. Assim, e à guisa de exemplo, creio não ser à toa o oficio do personagem (um escritor) que corrobora com o estereótipo de alguém solitário e misterioso; que cria o seu mundo particular sem depender muitas vezes das influencias externas.  

Em resumo, é interessante como o filme comunica algo tão peculiar a nossa existência, a saber, a necessidade de podermos nos identificar com o outro, nem que para isso tenhamos que sair da nossa cidade, estado ou país. Budapeste, na minha concepção é isto: é a vontade de ser reconhecido pelo (s) outro (s) com a intenção de autodeterminar-se, de ser aceito como realmente somos, e não como objetos forjados de si mesmo. Hoje mais do que nunca podemos ter essas experiências comparativas, e buscarmos uma identificação mais genuína, já que o processo de globalização nos fornece tal mobilidade de transito e acesso a outras culturas. Hoje, se não temos aceitação em uma determinada cultura, isso não significa mais um atestado de “óbito”, muito pelo contrário, agora é possível procurarmos um lugar “comum” do que termos que aceitar a indigestão de convivermos em um lugar sem a menor identificação. Não é mais a língua que nos limita, mas um composto de experiências que podem ou não nos ser favoráveis; e no caso deste filme podemos dizer que o inteligente é nos dispormos a essas facilitações que o globo terrestre nos proporciona hoje. O apátrida está subjacente não numa raiz, mas no ser.

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~ por Giordano Pablo Dantas em julho 5, 2009.

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