Fatal

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Inicialmente, considero o nome do filme auto-explicativo, “Fatal”: aquilo que necessariamente há de acontecer; que não podia deixar de acontecer; inevitável, fatal.

O que vemos nessa grande obra cinematográfica é mais uma forma de transmitir em imagens uma complexa simbologia arquetípica do inconsciente, e como o seu poder de interferir na vida dos homens se manifesta fatalmente, caso não saibamos compreendê-lo.

Brilhantemente atuando no papel de David Kepesh (Kingsley), que representa um bem sucedido crítico cultural de TV e astro literário de uma universidade de Nova York, que acreditava que toda a sua existência girava entorno da profissão e do sexo, vivendo todas as demais coisas da vida como se fossem secundarias àquelas, de maneira a negligenciar as forças psíquicas da “anima” ( a energia potencial da feminilidade), em prol do “animus” ( energia potencial da masculinidade), gerando choques traumáticos em sua vida. Assim, o personagem se furtava de viver, por exemplo, relacionamentos afetivos, chegando ao extremo de não se permitir ao convívio com seu próprio filho, como se ao “esconder” tais sentimentos ele estaria se resguardando de futuras frustrações, um medo aparentemente inexplicável, já que em outros espaços ele transitava com muita destreza.

Parte daqui a problemática que vai permear todo o drama do filme. Foi pelo viés psicológico baseado na obra “O Animal Agonizante”, do escritor Philip Roth, que a cineasta espanhola Isabel Coixet, põe suas lupa/lentes com a precisão de um arqueólogo a procura de achados de “mundos escondidos”, no caso, “mundos psíquicos”.

Em primeiro lugar, inicio a minha analise sob o aspecto da personalidade, em que pese a sua intelectualidade, ele não conseguia entender nem a si mesmo. Se revestindo nos moldes do intelectual, do auto-suficiente, do egocêntrico, ele acreditava que tudo já estava dado. Do outro lado, suas fragilidades eram visíveis – mesmo que não percebidas – pois ele tentava se “humanizar” buscando ter acesso a obras de arte, na musica, na literatura, coisas que, simbolicamente falando, quando são exageradamente buscadas, indicia maneiras/reflexos de algo que esta tentando manter um contado, pedindo a atenção para algum “vazio”, que diz: Você não está dando a devida atenção ao seu lado recalcado. Isso indubitavelmente o atingia frontalmente, de tal maneira que seu modo de “ler” o mundo era pragmático e “cientificado”, vivendo, tão-somente, para o mundo das funções, o que fazia dele uma pedra de mármore, sem valor algum, sem motivo de ser, desde que lapidada por alguém.

Essa “necessidade de alguém” aparece quando surge Consuela (Penélope Cruz), uma jovem estudante, abundantemente bela – comparada no filme a uma obra de arte pelo próprio personagem -, que abala com as edificações seguras do homem que parecia ter o poder de determinar o seu futuro até ser perfurar a fortaleza do seu ego por uma mulher. Percebendo nela coisas que ele não tinha – ou não dava importância (?) – como à beleza, à juventude, à sensibilidade; é solapado por um novo encontro consigo mesmo. O olhar para ela, na verdade é um olhar para dentro de si, e isso o causa um tremendo desconforto, pois se ver frente a frente com todos os seus “pesadelos”. Agora ele é desconstruído diante da impotência gerada por tais sentidos. “Não foi um encontro único”, diz ele em uma passagem do filme, se referindo à nova relação, como se até aquele momento não tivesse vivenciado uma experiência a dois, e que dessa vez ele não escaparia da “teia do amor”. Tais negações são como águas represadas, quanto mais acumuladas, mais se enche de energia, podendo a qualquer instante “arrebentar” com os muros que a represam. É justamente ele o vitimado por tantos acúmulos recalcados.

Mas como toda destruição só existe para reconstruir – salve Shiva! – a sua vida é levada a mudanças até então inimagináveis. Há uma frase proferida pelo amigo do personagem David que é de grande riqueza interpretativa. Quando seu amigo fala: “Mulheres bonitas são invisíveis, somos bloqueados pela barreira da beleza, ficamos tão encantados com a beleza exterior, que nunca chegamos ao interior”. Nesse “provérbio” dito num momento aparentemente simplório do filme, é de tamanha importância que eu chego a classificá-lo como a chave que desvela todo o mistério do filme.

Se levarmos em conta que a diretora está trabalhando com a simbologia arquetípica – e penso eu que ela fez justamente isso – elevando a figura da Consuela ao status de uma deusa Grega, perfeita na sua face externa, e cheia de conteúdo mitológico “intocável” por dentro, é exatamente por esta linguagem que se comunica o filme “Fatal”. Ora, a Consuela é tão inacessível que isso gera logo uma curiosidade sobre sua “origem”. O arquétipo da beleza, da juventude, da humildade, da família, da sensibilidade, da mãe, do amigo, tudo isso se personifica na criação da “mulher ideal” que está representada na mitologia de varias formas, e quando apresentada a David, um homem que não por acaso, ama as artes em geral, como ele não poderia deixar de se entregar a essa “armadilha” do inconsciente?

Mas a historia não pára por ai. O que é mais genial no filme é que enquanto tudo parecer ser mais um encontro de pessoas apaixonadas, o fato é que ao longo do convívio entre os dois, os efeitos/curas gerados são impressionantes. O que poderia ser superficial em qualquer outro filme, ganha um contorno ainda mais profundo em “Fatal”. O romance do casal recria suas vidas – e por que não dizer, resgata? – a partir dos seus medos, angustias, taras, fetiches, pelo encontro entre o “animus” e “anima” que estavam perdidos em algum lugar do mundo inconsciente de David. Isso é apreendido pelo espectador em vários momentos que ensejam “novos olhares” sobre o “mesmo ponto”.

Enfim, a diretora mostra a possibilidade de ponte entre o mundo da inconsciência e o mundo da consciência, e os “corpos estranhos”, ou seja, todos aqueles problemas que incomodavam o personagem, sem saber bem ao certo sobre suas origens, são erguidos através da individuação (no sentido Junguiano), e ganham sentidos rearranjados no dia-a-dia do casal.

Eu poderia ficar falando por horas a fio, tendo a certeza de que não conseguiria exaurir todo o debate acerca dessa grande obra prima do cinema. É com muito prazer que escrevo sobre este filme, pois ainda não tinha visto alguém transportar uma linguagem tão complexa, como é a psicologia analítica, para as telas do cinema. Valeu!

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~ por Giordano Pablo Dantas em junho 4, 2009.

Uma resposta to “Fatal”

  1. […] ideiasemfolhas : Fatal […]

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