Velha Juventude

Youth-Without-Youth
Coisas novas podem ter uma aparência de novidade, mas será que elas não provem de uma memória arraigadas em outros tempos do passado? Existe uma inteligência apriori como sugeria Kant?

Não há como negar que o filme desconstrói paradigmas da metodologia científica e abre clarões para novas possibilidades de investigação sobre o entendimento dos fenômenos da natureza. Mesmo que alguém desdiga, o fato é que o filme exemplarmente elabora um conjunto de imagens psíquicas numa linguagem quase que onírica e mitológica, apontando dimensões em planos diferentes, todavia, não incomunicáveis.

“O tempo é o limite que impede de chegarmos a grandes descobertas cientificas” (prega algumas das falas do Tim Roth (Dominic)). Muitas vezes dependemos do tempo de outras pessoas para a conclusão de determinados atos: do musico a quem deve o termino da canção; do medico, para que a cirurgia se conclua com êxito; do artista, para que a peça teatral chegue ao seu final, dos nove meses de gravidez para o parto da criança, e assim por diante. O curto período da vida é um empecilho no “continun” das idéias também. Com a ciência acontece o mesmo, quem constrói diretamente o tempo cientifico também são homens, feito de carne e osso, com suas limitações temporais. Muitos se perguntam o que teria sido da ciência caso Albert Austin tivesse vivido por muito mais tempo? Será que ele teria concluído a sua famosa Teoria do Tudo, e com isso modificado para sempre o rumo das ciências? Mas, como sabemos, o tempo é implacável e nem sempre o temos para concluir todas as “novas descobertas”, a julgar que a construção de uma ideia vai além do tempo biológico do “ator cientifico”.

Dessa forma, parece que o diretor problematiza o tempo da vida, afirmando que ela é um tempo por demais curto para conclusão das nossas obras, como se ficasse sempre algo inacabado, de tal maneira que persiste sempre uma vontade de viver mais com o objetivo de descobrir todos os segredos da natureza. A partir dessa constatação, o filme elabora uma ficção (será?) de um sujeito que na sede de concluir seu grande projeto de vida, é agraciado pelos deuses do tempo e sofre uma descarga elétrica de um relâmpago que lhe concede a proeza de rejuvenescer alguns anos, dando-lhe a chance temporal de concluir suas pesquisas. Mas se engana se ler o fato literalmente, conquanto o filme regi-se pela abstração dos significados mais amplos possíveis. O que quero dizer é que mesmo que o personagem tenha retrocedido no tempo, esse novo estado de ser, é apenas uma forma metafórica que o diretor faz uso para falar algo da ordem dos mistérios da natureza, já que a “juventude” independe do tempo biológico, a não ser que alguns a entendam como conseqüência física, da casca humana que nos protege.

A “juventude” vai além dos olhos, das impressões físicas, ela está – segundo o filme – em momentos contínuos e metafísicos do universo, como se todos estivéssemos acorrentados por uma inteligência que não tem tempo, só seguimento e construção. Não é que tudo já esta dado e traçado, nada disso, tudo ainda estar por vir, mas para que isso ocorra é necessário trabalhar as potencialidades humanas, até então esquecidas. A forma/forma (ciência clássica) em que construímos os nossos símbolos hoje, não passam de uma concha de retalhos, cheias de imperfeições que, ao fim, ao cabo, nos deixa como baratas tontas sem saber a onde ir.

Voltando as limitações que o filme fala (de não ter tempo), esta não é vista como limitação às grandes descobertas, ao contrario, o que está em debate é uma alternativa que burla o temporal perecível que há com a chegada da morte. Nem tudo que vai, vai por inteiro; fica sempre um pouco do que é herdado pela história à posteridade. Há sempre uma lembrança, alguma coisa que fica perdida no baú do passado, e ao ser vasculhado, o que parecia ter morrido, se revitaliza. Nada é tão novo como parece ser, nem tão velho para ser esquecido; existe uma reminiscência de um tempo já vivido, uma sabedoria atemporal, que pode ser esquecida por uma limitação física, mas não mental. Inegavelmente há uma busca de uma continuidade unificadora, de forma perene, que fica exposta no filme numa conversação que, parafraseando Baudelaire “é uma floresta de símbolos” que a ciência se apegou durante um longo período e que hoje se encontra inclinada a outras perspectivas, já que as que existem não dão conta dos anseios humanos.

A não negação do novo potencial material para a construção de uma nova teoria dependente necessariamente de um resgate do passado, de um momento na historias da humanidade a qual foi esquecida algum traço importante, mas que ainda persiste em nossos símbolos atuais, e, em particular, no inconsciente coletivo aprisionado no abismo de cada (ser)humano. Aqui está à gênese da edificação da A Velha Juventude, muito rica em todos os detalhes quando trata desses resgates metafísicos.

Todo percurso do filme estão presentes esses elementos questionadores sobre o método científico clássico, contrapondo estes com os mistérios esotéricos muitas vezes questionados pela epistemologia, não se sabendo se tais descrenças devem-se a falta de credibilidade na realidade dos fenômenos, ou por falta de metodologia que corresponda as emergências da “sociedade liquida”, ou seja, por não ser viável financeiramente esse tipo de pesquisa, já que ninguém quer pagar para ver os resultados de uma pesquisa que será usufruída, não por quem a patrocina, mas por seus descendentes mais longínquos, daí a razão em opta por um método mais pragmático, algo mais emergencial, mesmo que se perca a chance de descobrir coisas mais absolutas, e não apenas fetichismos científicos. Aqui entra um ponto de suma importância no filme. Alguns personagens ao perceberem a oportunidade lucrativa com o fenômeno que sucedeu ao professor Dominic, não levam em conta o potencial da descoberta em si, mas o proveito que estes podem levar sobre o acontecimento. Terminam por criar uma espécie de fantasia cientifica, sem buscar o que o professor quer com tal método, e isso é tão visível que em um dado momento, quando o professor já não tem mais o que oferecer, eles o ignoram literalmente, ao ponto de não saberem nem quem é aquele homem.

Este é um filme que prima pela qualidade em todos os aspectos, desde o modo de filmar, através dos “olhares” translúcidos lembrando dimensões mimetizadas rogando por mais tempo de vida, reproduzidos pela capitação das câmeras; bem como o cuidado na fotografia, como se estas fossem pétalas de rosas, leves, macias e cheias de cores acentuadas, deixando o espectador sentindo o “cheiro” da sua fragrância.

Enfim, o que fica de mais preciso é a vontade de, enquanto idosos, o que nos falta é o tempo para darmos continuidade aos projetos que julgamos necessários para a evolução da vida. Por outro lado, na condição de jovens, o que nos falta é sermos detentores dos conhecimentos que só a maturidade nos dá. Sem duvida, não questionamos que o tempo é fundamental para a evolução das ciências, entretanto, seria ideal se elas pudessem unir o tempo futuro e o tempo passado numa ordem que não castrasse as possibilidades do inesperado, e que tal continuidade não se perdesse com a morte de um “gênio”, mas pudesse dar continuidade ao resgatar o “espírito” de uma única vida – não de um único homem -, a saber, a vida atemporal da humanidade. Aquela que vive, mas que se comunica através de uma linguagem própria, não material.

Para quem acredita que o conhecimento é apriorístico, este é um ótimo filme para se ver. Para aqueles que acreditam serem as causas da vida uma construção da razão humana conquistada pelo uso da técnica cartesiana, no mínimo poderão se deliciar com a beleza das imagens e da técnica impecável do Coppola. E para terminar esses comentários, deixo uma frase do Carl J. Jung: “ Se os velhos pudessem e os jovens soubessem…”.

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~ por Giordano Pablo Dantas em maio 27, 2009.

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