Jules et Jim

•julho 31, 2009 • Deixe um comentário

Jules_et_Jim21Introduzindo mais um comentário fílmico, diria que, antes de tudo, o filme ora analisado, é uma grande exposição da menor diferença que as pessoas podem ter/querer em uma relação; discute por entre falas e imagens, o que é uma indiferença irredutível entre amigos vivenciados por Henri Serre e Óscar Werner (Jules e Jim), e entre estes e uma mulher, a linda Jeanne Moreau (Theresa).

Na medida em que as mulheres se tornaram senhoras dos seus desejos, sintomas sociais vêm crescendo de forma muito eloquente. Um desses sintomas, tão bem tratado na abordagem desse ícone da Nouvelle Vague, é a marca da “violência” aflorando na mulher, antevista já nos idos dos anos 60, pela crítica certeira do mestre Truffaut. A mulher construída no filme é uma mulher de comportamento, digamos, desviado; ciente da sua capacidade de “poder” sobre os homens, ela busca manipulá-los como se eles fossem marionetes em suas mãos, aplicando todo tipo de “formula” – já que agora ela é sujeito relacional e não mais objeto – para ser a grande estrela das atenções, tendo todos os desejos supridos e (in) reprimidos – desconto de um tempo de “clausura”, quem sabe?. A mulher agora ganha à posição dianteira nas relações sociais e, sabedora disso, arma um conjunto de sistemas para a sua retroalimentação, fazendo insurgir o inicio da crise da masculinidade.

A mulher em não sendo mais propriedade de direito do homem, torna-os jules_et_jimmuito mais confusos e perturbados com o esse novo modo de “ação” – no sentido Habermasiano – causando um estado de surpresa aos homens: O que deseja uma mulher? Esta pergunta está perenemente declarada na relação entre os dois homens (Jules e Jim). Eles são o fio condutor para se possa “ler” essa construção que o filme nos trás.

jules-et-jimNavegando na onda da literatura feminista do inicio do século vinte, encontramos obras como “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert; “A Mulher de Trinta Anos’, de Balzac; “Capitu”, de Machado de Assis, enfim, obras da literatura que são plasmadas tão bem no filme,  mostrando o sexo feminino sob essa nova perspectiva (para a época) do ser mulher.

E não poderia ser diferente, pois surgem ao tocar dos anos sessenta, novos mulher_para_dois_01questionamentos acerca da mulher: (i) o que essa mulher quer; (ii) o que ela não quer; (iii) como ela pensa. Tudo isso no afã de saber qual o novo papel não só da mulher, mas, principalmente, do homem frente a ela (mulher). Afinal, uma grande parte das dificuldades dos homens está, ainda hoje, em sua incapacidade de enxergar o que as mulheres enxergam neles.

Parece-me que está posto neste filme a obsolescência de uma identidade da definição  do (ser) masculino e feminino. À guisa de exemplo, os amigos Jules e  Jim, são mais “mulheres” do que a personagem Theresa , e esta, por outro lado, é mais “homem” que os dois personagens. Dessa forma, Truffaut, é pioneiro na analise do comportamento “masculino” na mulher, e como esta nova conduta se tornaria trágica ao pondo dela não suportar tamanha mudança e vivenciar um sentimento de “morte existencial” em todas as suas relações amorosas, haja vista que ela não conseguiu se reconhecer em nenhum homem, a não ser nela mesma, o que só exemplifica o motivo pelo qual o filme termina inesperadamente trágico.

Não sem razão,  essa é uma  obra que queba com paradigmas do  modo de fazer cinema da época,  principalmente de uma modo histórico de fazer cinema americano, predominantemente machista, retratados através dos  filmes de faroeste e romance, onde a mulher ora era tratada como a doce mocinha, dona de casa, sempre a espera do marido; ora como objeto sexual que se dispunha a saciar os desejos do homem, e passa a ter uma nova formar de exposição do “modus operandi” de se fazer cinema, o que podemos afirmar, sem insegurança, que o masculino na arte cinematográfica estaria superado a partir da realização de Jules et Jim, enredando novas possibilidades de retratar a questão de gênero entre homens e mulheres. Esse novo olhar, aqui, é algo que não se esgotou ainda, muito pelo contrpario. Ele permanece sob novos prismas modernos, os quais ensejam novas observações entorno das transformações culturais na sociedade. Em resumo, assistir a Jules et Jim, é uma oportunidade que o espectador terá de ter contato com uma brilhante retratação de um período revolucionário da história da mulher na atuação nos palcos da sociedade, e como as mudanças muitas vezes são vistas como algo absurdo no primeiro momento.

Nanoburrice

•julho 30, 2009 • Deixe um comentário

os-burrosEstamos impregnados de reduções utilitárias, vivemos momentos de puro simplorismo dos objetos que nos cercam, apreciando o redutível, a pequinês em suas múltiplas facetas. Glorificamos à nanolinguagem, o nanohumanismo, a nanociência, a nanoburrice!

Predomina em quase todas as apelações mercadológicas: o bom, útil e moderno, têm que ser necessariamente pequeno, “portátil”. O espaço para o grande, para o extenso, salvo algumas exceções, como as TVs de quarenta, cinqüenta, sessenta polegadas (… ), todo o resto, é minúsculo.

Basta dar uma olhada nas vitrines das lojas para constatar o que digo. Os computadores e celulares são os grandes exemplos dessa nova onda – nem tão nova assim, eu sei. Contudo, a minha preocupação não se volta para esse tipo de objeto de “consumo pelo consumo”; confesso que até vejo com bons olhos toda essa criação tecnológica, mas se estas não fossem uma pandemia que perpassem os limites das coisas inanimadas e adentrassem na vida dos indivíduos que, ao valorarem como absoluto, acabam por introgetarem isso em todas as formas de convivência humana, inclusive a intelectual.

É o que eu chamo de “nanoburrice”, ou seja, quase tudo na vida das pessoas são valorizadas pela capacidade de redução. Vejam a literatura. Esta vem a cada dia sendo apreciada pela capacidade de sinterização, haja vista os títulos mais vendidos atualmente com temas: “Os 100 Melhores Contos”; “Os dez Merores Livros do Mundo”; “As Melhores Frases”… Coisas desse gênero que nós bem sabemos que é crescente nas prateleiras das livrarias.

Entretanto, o mais agonizante dessa história toda é a nanoburrice no ensino como um todo. Quem nunca viu uma publicidade que vende um curso de graduação em dois anos? Algumas estão inovando e reduzindo esse tempo para um ano. Outra prova cabal dessa degradação são os famosos polígrafos de faculdade que “facilitam” a vida do acadêmico com os resumos das obras – digamos – densas em demasia para serem lidas integralmente. A nova ordem é a da sub-leitura das obras, já bem assimiladas por quem fez a síntese delas. Pesquisas?! Para quê? Joga no Google que ele resolve.

Outra concepção clássica desse mal trajado caminho, é o da industria da “saúde”. A quantidade de remédios oferecidos com a promessa de que tudo é resolvido em cápsulas, bastando para isso uma pílula aqui, outra a colá, que estará minimamente solucionado sem o menos esforço do paciente, desde que ele substitua sua dieta pela nova formula da Luciana Gimenez.   

A vida com esses novos contornos é uma vida “binária”, reduzida a pequenas partes de um todo que termina sendo esquecida em prol de uma fadiga mental. De acordo com Kant, no mundo social existem duas categorias de valores: o preço e a dignidade. Enquanto o preço representa um valor exterior (de mercado) e manifesta interesses particulares, a dignidade representa um valor interior (moral) e de interesse geral. As coisas têm preço; as pessoas, dignidade. E esta, está se esvaindo com tais valores, de modo que corremos o risco de não desenvolvermos a autocrítica, tão valiosa para a evolução humana.

Enfim, para não ser extenso demais, e não correr o risco de também não ser lido pela falta de “concisão”, fica registrado este pequeno texto em alerta as facilidades travestidas de coisas boas em novos padrões, deveras, tão “pequenos”.

Cinzas do Passado Redux (Dung che sai duk redux)

•julho 23, 2009 • Deixe um comentário

cinzasNeste brilhante filme encontramos dimensões metalingüísticas que, no primeiro momento, podem parecer-nos estranhas pelo fato de não seguirem uma comunicação lógico-formal na sua narrativa. Aliás, isto é uma marca da autoralidade desse diretor (Wong Kar-wai), cujo uso da linguagem extrapola as atmosferas do cognoscível.

Quem for assistir a essa obra-prima do cinema, vai se deparar com doses extras de radicalização do imaginário, da simbologia e da sincronização do tempo. Pode haver uma posição intelectualmente mais incômoda que a de “flutuar” na névoa de possibilidades não comprovadas, não sabendo se as imagens que estamos vendo são verdadeiras ou ilusão? Essa é a atmosfera quase onírica de Cinzas do Passado Redux, e nele não encontramos nada em que possamos confiar, exceto o nosso próprio e tão falível julgamento subjetivo.

Entretanto, na tentativa de dar algum direcionamento acerca da compreensão da obra, não hesitaria em dizer que o guia para tanto está no que eu chamo de “textura” cinematográfica, ou seja, naquilo que aparece aos sentidos: cor, luz, sombras… Todo tipo de objeto comunicacional que  causa às impressões nos espectadores.

 Vejamos alguns elementos desse complexo jogo de texturas, tão bem utilizado no filme.

Em primeiro lugar, verificando os elementos terra, ar, fogo e água, chegamos a uma definição que taiscinzas 2 elementos são intrínsecos ao movimento, as afetações do homem. Entendo que o diretor atribui os acontecimentos, ditos naturais, aos próprios acontecimentos que sucedem ao ser humano,  não existem casualidadem;  o que há é uma sincronização de eventos que coincidem com a vida humana. A indissociação entre o acaso e “devir” – para usar uma linguagem mais moderna para existência –  é uma constante. A guisa de exemplo, podemos perceber em alguns trechos do filme as mudanças das estações, e como essas influenciam sobre o comportamento dos personagens.

Em segundo momento, a riqueza das cores impregnadas em todas as cenas, é de tirar o fôlego. Joga-se “tintas” e mais “tintas” para criar um efeito multicolorido, que ao fim, ao cabo, constrói uma riqueza visual que proporciona outras perspectivas do que seja o enxergar. Isso nos induz a um pensamento schopenhaueriano, ou seja, será tudo que vemos uma mera limitação dos sentidos? Bem, o filme não explica tais indagações, mas sem duvida sentimos uma outra possibilidade de existência ao ver outras perspectivas visuais. 

E já que tocamos na questão das possibilidades, acho esse conceito seria uma boa forma para discernir o material artístico aqui comentado. Quando em um determinado momento se alude a possibilidade de esquecimento dos males do passado, através do vinho mágico, acredito que ele seja uma mensagem “oracular” – como existe em quase toda a cultura oriental – para dizer que o passado negro tem que ser superado, ao passo que quem carrega-o no futuro, carrega também os males do atemporal.

cinzas 4Enfim, alguns especialistas são capazes de determinar só pelo aspecto, gosto e comportamento de um vinho a sua procedência e o ano de sua origem. Existem conhecedores de antiguidades que podem afirmar como extravagância precisão a data, o lugar de origem e o autor de um objeto de arte, simplesmente olhando-os. Existem astrólogos que podem dizer a uma pessoa, sem nenhum conhecimento prévio, a data do seu nascimento, qual era a posição do sol e da lua, e qual o signo que se encontrava sobre o horizonte no momento de seu nascimento. Portando, diante de tais fatos é preciso admitir que os momentos possados deixam marcas duradouras em nossas vidas, muitas vezes não desejadas.

Finalizando essa tentativa de explicar a linguagem desse diretor e, em particular, desse filme, insisto que quem for vê-lo tem que se despir do cartesianismo clássico. Não podemos ter um ponto de vista causal. A causalidade enquanto meramente estatística não admitiria, aqui, um entendimento. Pois ela exige uma explicação como um dado acontecimento surge a partir de outro. Algo totalmente diametral da proposta desse diretor, que comunica a sincrônidade, ou seja, a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significando algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si, assim como dos estados subjetivos (psíquicos) dos observadores.    

 

Budapeste

•julho 5, 2009 • Deixe um comentário

budapeste07tSer considerado um estranho em outro país é algo normal nos fatos da vida, já que quando estamos fora de nossa pátria nos deparamos com um mundo desconhecido nos seus múltiplos aspectos, sejam eles sociais ou culturais, o certo é que não é fácil se adaptar quando se está a conclamar diferenças muitas vezes gritantes, como os idiomas distintos, por exemplo. Mas o incomum mesmo – nem sempre o é – é se sentir um estrangeiro na sua própria pátria, na sua região, no seu estado, na sua cidade, e pasmem, até na própria família.  

O filme Budapeste é um pouco disso, ou seja, nos leva para uma dimensão na qual não se sabe bem ao certo onde se estar. A transposição e a sobreposição dos dois países – Brasil (Rio de Janeiro) versus Hungria (Budapeste) – de culturas tão distintas, serve como parâmetro denotativo para problemas incontornáveis de um homem que não consegue seu espaço na sociedade. Não importa o país, a predominância de uma sensação de estrangeirismo erguida sobre a “anatomia” do personagem José Costa (Leonardo Medeiros) é uma constante.  

A “falta”, isto é, o incomodo de estar faltando algo que preencha a vida, a sensação de estar no lugar errado, na companhia de pessoas que não nos interessa, traduz uma falta de acolhimento existencial num abstruso vazio intelectual.

Brasil-Budapeste, o que há de melhor no novo é o que responde ao desejo mais antigo; por mais antigo, neste caso, torna-se a busca pela efetivação, tão ampla quanto possível, da conclamação de Pico della Mirandola, feita seus séculos atrás, segundo a qual “nada é mais magnífico na terra do que o homem”.  O homem (José Costa), é o catalisador dessas coisas novas e antigas.

Não há como não nos focarmos no personagem, pois, afinal, este é o tipo de filme que centraliza quase que inteiramente suas lentes em um único personagem, “esquecendo” do seu entorno. Este, quando aparece, é apenas para compor o cenário sobre o qual o personagem age; portanto não existe vida fora do seu mundo; à alteridade é algo distante, intocável. Assim, e à guisa de exemplo, creio não ser à toa o oficio do personagem (um escritor) que corrobora com o estereótipo de alguém solitário e misterioso; que cria o seu mundo particular sem depender muitas vezes das influencias externas.  

Em resumo, é interessante como o filme comunica algo tão peculiar a nossa existência, a saber, a necessidade de podermos nos identificar com o outro, nem que para isso tenhamos que sair da nossa cidade, estado ou país. Budapeste, na minha concepção é isto: é a vontade de ser reconhecido pelo (s) outro (s) com a intenção de autodeterminar-se, de ser aceito como realmente somos, e não como objetos forjados de si mesmo. Hoje mais do que nunca podemos ter essas experiências comparativas, e buscarmos uma identificação mais genuína, já que o processo de globalização nos fornece tal mobilidade de transito e acesso a outras culturas. Hoje, se não temos aceitação em uma determinada cultura, isso não significa mais um atestado de “óbito”, muito pelo contrário, agora é possível procurarmos um lugar “comum” do que termos que aceitar a indigestão de convivermos em um lugar sem a menor identificação. Não é mais a língua que nos limita, mas um composto de experiências que podem ou não nos ser favoráveis; e no caso deste filme podemos dizer que o inteligente é nos dispormos a essas facilitações que o globo terrestre nos proporciona hoje. O apátrida está subjacente não numa raiz, mas no ser.

As Testemunhas (Les Témoins)

•julho 5, 2009 • Deixe um comentário

testemunhas-poster03 Um filme que evolui suavemente, que sai de um início simplório, modesto, tímido, e como a nascente de um rio, vai se agigantando ao longo dos seus afluentes até nos impressionar com sua magnitude.

Sem grandes rompantes dramáticos, embora o tema suscite um grau elevado de nervos, o filme escolhe falar de um assunto aparentemente trivial. Grosso modo, são duas historias extraída de uma única premissa, a saber, a de que o amor não se confunde com o sexo; aqui entenda-se não o sexo no sentido de prazer, mas no sentido de gênero. Suavemente caracterizado por casais heterossexuais e homossexuais para mostrar que existe algo de comum nesta suposta diversificação, tendo como núcleo fundante a incompletude sexual nos seus aspectos promíscuo; esses sujeitos se assemelham para falar que não há distinção em matéria de sexo. O que existe na realidade é um liame tênue que se manifesta de maneiras particulares a determinadas pessoas.

Quando passamos a identificar nos personagens que o sexo é uma pulsão instintiva que gera a insaciedade, e muitas vezes o descontrole moral – como sugere a procura pelo proibido, sempre mais prazeroso – fica patente a identificação entre esses dos grupos heterogêneos.

Isso é uma das particularidades que se mostra no transcorrer dos fatos que terminam por desaguarem no rio profundo que eu me referir no início destes escritos. A partir dessa dimensão avaliamos certas efemeridades nas relações. Tanto da parte dos heterossexuais bem como na vida dos gays, os “abismos” são facilmente esquecidos ou substituídos. Notem (quem for ver o filme) que ambos os casais, Adrien (Michel Blanc) e Manu (Johan Libéreau), de um lado; Sarah (Emmanuelle Béart) e Mehdi (Sami Bouajila), de outro, são levados a racionalizarem os acontecimentos sopesando – sensivelmente – o custo das escolhas: ter filhos ou escrever um livro; ter conforto ou liberdade; segurança ou prazer… Essas são uma das varias balanças comportamentais que o filme pontua.

Sem mais para o momento, recomendo esse delicado filme que aos olhos de um “guitarrista” poderá não agradar muito, principalmente quando se tem uma grande potencia nas caixas de som e esta termina por se calar.  Mas, todavia, nas mãos de um “pianista” será sem dúvida encontrado o tom necessário para alcançar os ouvidos mais exigentes, porém através de notas mais suaves e baixas.

O Julgamento em Nuremberg (Judgment em Nuremberg)

•julho 5, 2009 • Deixe um comentário

Julga

Geniais indagações são levantadas em um dos filmes mais dialéticos que eu já assisti até hoje. Questões que fazem pensar sobre quem fazem as leis – os juízes ou os políticos? Como se chega a uma decisão justa? Existe o justo? Ou este é um acordo convencionado pelo poder político? Perguntas como essas vão sendo cuidadosamente trabalhadas majestosamente ao longo da narrativa regada por elementos musicais e interpretativos da melhor qualidade. Um verdadeiro clássico do cinema. Recomendável a quem se interessa em historia, política, filosofia, enfim, que tem algum interesse em cinema de qualidade.

O Julgamento em Nuremberg reflete a historia de uma Alemanha que fora julgada e condenada por um tribunal sem legitimidade – segundo a opinião de alguns -, pois, este, além de não nascer de suas entranhas, os operadores do direito desconheciam o “DNA” do seu passado.

É nesse passado, pré-Hitler, que impecavelmente tenta ser resgatado, em particular, nas contestações tão bem elaboradas pela defesa, quem são os verdadeiros culpados pelos crimes cometidos contra vários grupos humanos. O que esta em jogo não é negar o que aconteceu, mais explicar o porquê que aconteceu.

Para tanto, como ficou relatado no discurso de alguns dos personagens, realmente haviam pessoas que tinham um passado “limpo”, longe das ideologias do Terceiro Heich; pessoas de bem, que contribuíram positivamente com suas vidas para o desenvolvimento das artes, das ciências e da educação. Pessoas estas – não sem motivos – muito elogiadas e aclamadas nos tempos modernos, e pela própria ciência jurídica, em particular. Não há como se fazer uma justiça efetiva sem levar em conta todos os elementos que consubstanciam nos fatos históricos. Essa é a proposta, tão bem executada, e extensivamente debatida ao longo de três horas de filme.

Sem dúvida, o que vemos nessa obra prima – entre tantos outros aspectos – é uma aula de como se perquire a justiça, na sua melhor acepção. E tal estado de consciência é trazido à baila pelos olhos do Juiz Americano, representado numa magnífica interpretação pelo ilustre Spencer Tracy que, em tantos outros feitos, sempre se questiona a legitimidade da sua figura ao presidir um jure fora da sua nação. Muitas são as cenas que nos comprovam tais dúvidas, mas a mais eloqüente de todas elas, para mim, é quando ele sai da sala em que estava ocorrendo o júri e vai caminhando pelas ruas de Nuremberg compassos lentos e observando tudo à sua volta. julgamento-em-nuremberg02

Ao caminhar por elas, ele se “situa” com o cotidiano dos cidadãos alemães, de quem percebe que há uma contradição entre a imagem criada mundialmente pela mídia e a que ele próprio estaria constatando. A exemplo do que digo, recomendo olhar atentamente para uma cena que ele está comendo ao caminhar e nota que no espaço convival de Nuremberg, habitavam pessoas que, como o advogado de defesa bem argumentou, tinham algo que ia além do nazismo; o seu olhar terno neste momento lançado sobre uma moça, é algo comovente tanto em termos técnicos, ao cabo de uma criação realística impecável na troca de olhares, uma “vivencia” do personagem; bem como no que tange ao profusão de idéias geradas, que sugestionam a possibilidade de humanização mesmo sob um regime totalitário.
É nesse ato de ir às ruas para tentar compreender como um povo capaz de desenvolver tamanhas virtudes, foram capazes de deixar que o caos se instalassem de maneira tão bestial no seu meio. Assim, a atitude do juiz, não só está em conformidade com o que o mestre, Dolnalt Duorking, cuja obra “O império do Direito”, julga ser essencial para compreender as grandes decisões dos tribunais, tentando entender integralmente os acontecimentos, sem, contudo, ficar circunscrito ao seu tempo, mas imprime o verdadeiro ato de julgar, ficando acessível para todas as experiências que possam fazer dele um homem disposto a entender a verdade para além do próprio tribunal.

É extraordinária a riqueza dos “questionamentos reflexivos” que o filme desperta no contato – principalmente – com as falas dos atores. Em um momento oportuno, Dan, depois de um longo embate no tribunal, senta-se no sofá onde está hospedado na cidade, e pega um livro escrito por uns dos réus, Ernst Janning, não menos que uns dos construtores da constituição de Weimer, que agora sentava-se no banco dos réus.

Nesse momento o juiz ao ler alguns trechos da obra para os seus colegas presentes, verifica que as ideias propostas ali, aludiam “retratos” de um tempo que primava por uma civilização sem armas, por valores que colocavam a vida humana acima de quaisquer outros interesses, consagrando valores de liberdades e de humanidade. Como uma espécie de professor, sabedor que o aprendizado crítico se dá não apenas por afirmações emanadas de sua erudição, mas da capacidade de motivar perguntas, neste instante questiona aos demais companheiros “como alguém capaz de produzir coisas tão sublimes, poderia participar de crimes tão bárbaros?”.

Diante de tais fatos, ele busca o que poderia mais se aproximar da verdade, tendo como foco a grande responsabilidade que tinha em suas mãos.

Ora, é sabido que caso o tribunal de Nuremberg condenassem alguns dos homens mais ilustres da sociedade Alemã, comprometeria diretamente os ânimos dos cidadãos que poderiam se posicionarem contra os EUA e a favor da USS no período que se convencionou de chamar de guerra fria, ariscando toda a credibilidade erguida sob pilares frágeis, e com isso dar outros rumos aos planos de “reconstrução” da Alemanha.

Isto exercia uma pressão direta sobre os magistrados, ao ponto de ser cogitado varias vezes a renuncia do julgamento em questão. Mas nem isso foi capaz de abalar as estruturas éticas e morais do nosso jurisconsulto, Dan. Ele mesmo em alguns trechos afirmou que nem sempre a decisão mais lógica, é a mais justa, e que o homem não pode fraquejar diante dos interesses externos, embora devesse avaliar integralmente as múltiplas variáveis do momento histórico. Não há uma solução fácil diante de casos tão complexos.

Enfim, este é um filme que fala sobre o tempo da justiça; um tempo que pode variar de acordo com os regimes políticos, sociais e culturais, em suma, como fala Noberto Bobbio, que se preocupa com o tempo histórico.

Fatal

•junho 4, 2009 • 1 Comentário

fatal-poster04

Inicialmente, considero o nome do filme auto-explicativo, “Fatal”: aquilo que necessariamente há de acontecer; que não podia deixar de acontecer; inevitável, fatal.

O que vemos nessa grande obra cinematográfica é mais uma forma de transmitir em imagens uma complexa simbologia arquetípica do inconsciente, e como o seu poder de interferir na vida dos homens se manifesta fatalmente, caso não saibamos compreendê-lo.

Brilhantemente atuando no papel de David Kepesh (Kingsley), que representa um bem sucedido crítico cultural de TV e astro literário de uma universidade de Nova York, que acreditava que toda a sua existência girava entorno da profissão e do sexo, vivendo todas as demais coisas da vida como se fossem secundarias àquelas, de maneira a negligenciar as forças psíquicas da “anima” ( a energia potencial da feminilidade), em prol do “animus” ( energia potencial da masculinidade), gerando choques traumáticos em sua vida. Assim, o personagem se furtava de viver, por exemplo, relacionamentos afetivos, chegando ao extremo de não se permitir ao convívio com seu próprio filho, como se ao “esconder” tais sentimentos ele estaria se resguardando de futuras frustrações, um medo aparentemente inexplicável, já que em outros espaços ele transitava com muita destreza.

Parte daqui a problemática que vai permear todo o drama do filme. Foi pelo viés psicológico baseado na obra “O Animal Agonizante”, do escritor Philip Roth, que a cineasta espanhola Isabel Coixet, põe suas lupa/lentes com a precisão de um arqueólogo a procura de achados de “mundos escondidos”, no caso, “mundos psíquicos”.

Em primeiro lugar, inicio a minha analise sob o aspecto da personalidade, em que pese a sua intelectualidade, ele não conseguia entender nem a si mesmo. Se revestindo nos moldes do intelectual, do auto-suficiente, do egocêntrico, ele acreditava que tudo já estava dado. Do outro lado, suas fragilidades eram visíveis – mesmo que não percebidas – pois ele tentava se “humanizar” buscando ter acesso a obras de arte, na musica, na literatura, coisas que, simbolicamente falando, quando são exageradamente buscadas, indicia maneiras/reflexos de algo que esta tentando manter um contado, pedindo a atenção para algum “vazio”, que diz: Você não está dando a devida atenção ao seu lado recalcado. Isso indubitavelmente o atingia frontalmente, de tal maneira que seu modo de “ler” o mundo era pragmático e “cientificado”, vivendo, tão-somente, para o mundo das funções, o que fazia dele uma pedra de mármore, sem valor algum, sem motivo de ser, desde que lapidada por alguém.

Essa “necessidade de alguém” aparece quando surge Consuela (Penélope Cruz), uma jovem estudante, abundantemente bela – comparada no filme a uma obra de arte pelo próprio personagem -, que abala com as edificações seguras do homem que parecia ter o poder de determinar o seu futuro até ser perfurar a fortaleza do seu ego por uma mulher. Percebendo nela coisas que ele não tinha – ou não dava importância (?) – como à beleza, à juventude, à sensibilidade; é solapado por um novo encontro consigo mesmo. O olhar para ela, na verdade é um olhar para dentro de si, e isso o causa um tremendo desconforto, pois se ver frente a frente com todos os seus “pesadelos”. Agora ele é desconstruído diante da impotência gerada por tais sentidos. “Não foi um encontro único”, diz ele em uma passagem do filme, se referindo à nova relação, como se até aquele momento não tivesse vivenciado uma experiência a dois, e que dessa vez ele não escaparia da “teia do amor”. Tais negações são como águas represadas, quanto mais acumuladas, mais se enche de energia, podendo a qualquer instante “arrebentar” com os muros que a represam. É justamente ele o vitimado por tantos acúmulos recalcados.

Mas como toda destruição só existe para reconstruir – salve Shiva! – a sua vida é levada a mudanças até então inimagináveis. Há uma frase proferida pelo amigo do personagem David que é de grande riqueza interpretativa. Quando seu amigo fala: “Mulheres bonitas são invisíveis, somos bloqueados pela barreira da beleza, ficamos tão encantados com a beleza exterior, que nunca chegamos ao interior”. Nesse “provérbio” dito num momento aparentemente simplório do filme, é de tamanha importância que eu chego a classificá-lo como a chave que desvela todo o mistério do filme.

Se levarmos em conta que a diretora está trabalhando com a simbologia arquetípica – e penso eu que ela fez justamente isso – elevando a figura da Consuela ao status de uma deusa Grega, perfeita na sua face externa, e cheia de conteúdo mitológico “intocável” por dentro, é exatamente por esta linguagem que se comunica o filme “Fatal”. Ora, a Consuela é tão inacessível que isso gera logo uma curiosidade sobre sua “origem”. O arquétipo da beleza, da juventude, da humildade, da família, da sensibilidade, da mãe, do amigo, tudo isso se personifica na criação da “mulher ideal” que está representada na mitologia de varias formas, e quando apresentada a David, um homem que não por acaso, ama as artes em geral, como ele não poderia deixar de se entregar a essa “armadilha” do inconsciente?

Mas a historia não pára por ai. O que é mais genial no filme é que enquanto tudo parecer ser mais um encontro de pessoas apaixonadas, o fato é que ao longo do convívio entre os dois, os efeitos/curas gerados são impressionantes. O que poderia ser superficial em qualquer outro filme, ganha um contorno ainda mais profundo em “Fatal”. O romance do casal recria suas vidas – e por que não dizer, resgata? – a partir dos seus medos, angustias, taras, fetiches, pelo encontro entre o “animus” e “anima” que estavam perdidos em algum lugar do mundo inconsciente de David. Isso é apreendido pelo espectador em vários momentos que ensejam “novos olhares” sobre o “mesmo ponto”.

Enfim, a diretora mostra a possibilidade de ponte entre o mundo da inconsciência e o mundo da consciência, e os “corpos estranhos”, ou seja, todos aqueles problemas que incomodavam o personagem, sem saber bem ao certo sobre suas origens, são erguidos através da individuação (no sentido Junguiano), e ganham sentidos rearranjados no dia-a-dia do casal.

Eu poderia ficar falando por horas a fio, tendo a certeza de que não conseguiria exaurir todo o debate acerca dessa grande obra prima do cinema. É com muito prazer que escrevo sobre este filme, pois ainda não tinha visto alguém transportar uma linguagem tão complexa, como é a psicologia analítica, para as telas do cinema. Valeu!